Newsletter #39 - Ambiência e eventos científicos
Neste fim de semana tivemos o XXII Simpósio Internacional de Fisioterapia Respiratória, Cardiovascular e em Terapia Intensiva, na linda e acolhedora Natal, RN. Foram dias intensos, muitas aulas, discussões científicas, reencontros e, principalmente, contato com pessoas que estão produzindo, pesquisando e pensando a fisioterapia.
Voltando para casa, fiquei pensando o quanto participar de eventos científicos mudou minha vida. Mas essa mudança não se deve apenas aos aprendizados técnicos. Existe algo que vai muito além do conteúdo das palestras. Durante o próprio evento, conversando com os colegas, lembrei o quanto a ambiência é capaz de influenciar desfechos importantes na nossa vida e gostaria de abordar esse tema nesta newsletter.
O quanto os ambientes que frequentamos influenciam na pessoa e no profissional que nos tornamos?
No mundo da internet, esse conceito costuma aparecer mais ou menos assim: "você é a média das cinco pessoas com quem mais convive". Apesar de essa máxima ser muito rasa e imprecisa, ela não está completamente errada. É claro que não nos transformamos automaticamente nas pessoas que estão ao nosso redor e muito menos nosso desenvolvimento profissional pode ser explicado apenas pela média do comportamento de cinco pessoas.Entretanto, existe uma ideia muito mais interessante por trás disso. O sociólogo francês Pierre Bourdieu utilizou o conceito de habitus para explicar como nossas experiências, condições de vida e os diferentes espaços sociais pelos quais circulamos vão produzindo disposições relativamente duráveis que influenciam a maneira como percebemos o mundo, fazemos escolhas e enxergamos aquilo que é possível para nós. Não significa que o ambiente determine quem seremos, mas significa reconhecer que nossas escolhas não acontecem completamente isoladas da nossa história e dos ambientes nos quais essa história foi construída. Nossa família e o ambiente em que convivemos têm forte influência nas nossas escolhas e ações mais íntimas e, muitas vezes, nem percebemos isso. Espero que Bourdieu não se revire no caixão com o que eu entendi do conceito dele.
Nosso desenvolvimento não depende apenas da capacidade individual, mas também das pessoas com quem convivemos, das referências às quais somos expostos, das redes que construímos, do conhecimento que circula ao nosso redor e das oportunidades às quais conseguimos ter acesso É nesse sentido que gosto de pensar em ambiência quando falamos de desenvolvimento profissional. Nosso desenvolvimento não depende apenas da capacidade individual, mas também das pessoas com quem convivemos, das referências às quais somos expostos, das redes que construímos, do conhecimento que circula ao nosso redor e das oportunidades às quais conseguimos ter acesso. Em outras palavras, os ambientes que frequentamos ajudam a construir o repertório a partir do qual imaginamos nosso próprio futuro.
Quando você começa a frequentar ambientes onde as pessoas estudam, pesquisam, desenvolvem projetos, empreendem e discutem novas ideias, alguma coisa acontece. Não existe mágica nisso. Existe exposição. Você começa a descobrir coisas que não sabia, conhece pessoas que estão fazendo aquilo que gostaria de fazer e percebe possibilidades profissionais que talvez nem soubesse que existiam. E essa é uma das razões pelas quais continuo acreditando tanto na importância de participar presencialmente de bons eventos científicos: não apenas pelas palestras ou pelo conhecimento adquirido, mas pela ambiência que esses encontros proporcionam.
Eventos científico é muito mais do que palestras
Muitas pessoas decidem ir ou deixam de ir a um evento científico olhando apenas para a programação e para os temas das palestras. Mas será que participar de atividades educacionais realmente modifica nossa prática clínica? Uma revisão sistemática da Cochrane publicada em 2021 reuniu 215 estudos, envolvendo mais de 28 mil profissionais de saúde, e encontrou efeitos modestos sobre a adesão às práticas recomendadas. Nos estudos que avaliaram esse desfecho de forma dicotômica, a melhora mediana foi de aproximadamente 4 pontos percentuais, com grande variação entre os trabalhos. Quando os autores avaliaram desfechos dos pacientes, os efeitos foram ainda menores.
Portanto, seria exagero dizer que algumas palestras são capazes de transformar nossa prática profissional. Entre ouvir uma informação nova e incorporá-la à rotina existe uma distância enorme. Talvez o maior valor de um congresso esteja justamente em outra coisa: plantar dúvidas, apresentar problemas que você nem sabia que tinha e oferecer ideias que sozinho poderia levar anos para encontrar.
A primeira vez que ouvi falar de treinamento muscular inspiratório foi em um congresso, em 2009. Aquele primeiro contato despertou meu interesse pelo tema, que depois fez parte do meu mestrado e passou a integrar minha prática clínica com centenas de pacientes. Com a variabilidade da frequência cardíaca aconteceu algo parecido. E quantas outras soluções técnicas ou até de negócio eu já encontrei em uma conversa no café com alguém que havia passado pelo mesmo problema e acabou me economizando tempo, dinheiro e vários erros?
A literatura chama parte desse processo de aprendizagem informal: o conhecimento adquirido fora das estruturas formais de ensino, por meio da observação, das perguntas, das discussões e da troca de experiências. Em um congresso, isso acontece o tempo inteiro. Por isso, quando avaliamos um evento apenas pela grade científica, corremos o risco de ignorar justamente uma das partes mais valiosas dele: *o conhecimento que circula fora do palco.*
Mude suas referências e amplia suas conexões
Esse talvez seja um dos efeitos mais interessantes da ambiência. Certamente você conhece um profissional que reclama o tempo todo da própria profissão. Muitas vezes, esse profissional convive em ambientes onde poucas pessoas estudam, pesquisam, participam de associações da sua especialidade ou buscam novas possibilidades de atuação. Agora coloque esse mesmo profissional em um ambiente cercado por pessoas desenvolvendo pesquisas, construindo serviços, criando tecnologias, publicando artigos e propondo novas formas de atuação. Quando ele percebe que outras pessoas estão fazendo, aquilo que parecia distante começa a parecer possível. Bons ambientes não entregam apenas conhecimento. Eles ampliam nosso horizonte de possibilidades e nos mostram caminhos que talvez nem soubéssemos que existiam.
Além disso, ao frequentar eventos científicos e participar de cursos, você tem a oportunidade de conhecer pessoalmente profissionais que são referências em suas áreas. Isso pode ajudar muito em diferentes momentos da carreira: entrar em um mestrado ou doutorado, mudar de emprego, participar de um projeto de pesquisa, receber um convite para dar uma aula ou iniciar uma parceria profissional. Quanto mais pessoas conhecem você e o seu trabalho, maior a chance de seu nome ser lembrado quando uma oportunidade surgir.
No fim das contas, mudar de ambiente também significa mudar as pessoas com quem você troca ideias, aprende e constrói relações. E isso pode ser decisivo. As competências continuam sendo suas, mas muitas vezes são as conexões que criam as pontes para que essas competências encontrem novas oportunidades.
Talvez seja por isso que, depois de tantos anos participando de congressos, eu tenha cada vez mais dificuldade de avaliar um evento apenas pela programação científica. Claro que quero assistir a boas palestras e voltar para casa sabendo mais do que sabia quando cheguei. Mas hoje entendo que uma parte importante do que levamos desses encontros não cabe no certificado e nem aparece na programação. São as conversas, as novas referências, as ideias, os incômodos e as possibilidades que aquele ambiente nos apresentou.
Escolher bons ambientes também é uma forma de investir na sua formação. E, embora nada substitua a experiência presencial de um bom evento científico, não precisamos esperar o próximo congresso para continuar cercados de boas referências, novas ideias e pessoas interessadas em evoluir profissionalmente.
Foi também com esse propósito que construímos a CentralFlix: criar um ambiente de aprendizado contínuo para fisioterapeutas que querem aprofundar seus conhecimentos, questionar sua prática e continuar em contato com profissionais que também acreditam que estudar faz parte da nossa profissão.
Se você quer colocar mais desse tipo de ambiência na sua rotina profissional, venha conhecer a CentralFlix. Quem sabe uma aula, uma discussão ou uma ideia encontrada por lá não seja o ponto de partida para algo que você ainda nem imaginou fazer?
Por: Francisco Oliveira
Divulgador científico - Central da Reabilitação
