Newsletter#38: Os estudos que mudaram a história da fisioterapia em terapia intensiva — e a minha também.
Em 2007 eu estava no último ano da graduação e, desde o segundo semestre, meu foco principal era fisioterapia em terapia intensiva adulto. Naquele momento havia muitas opções de estágio e eu já acumulava mais de 1.000 horas práticas, além de cursos e simpósios que sempre frequentei em Salvador.
O cenário era favorável quando um professor solicitou que eu apresentasse um artigo que tinha sido publicado nos anos 2000 pela fisioterapeuta australiana Kathy Stiller. Esse artigo tirou-me a certeza que já estava consolidada em mim.
Eu acreditava, piamente, que a fisioterapia respiratória em pacientes críticos era toda baseada em evidências robustas. Pensava que as técnicas que aplicava nos meus paciente para auxiliar a remoção de secreção e expansão pulmonar representavam o melhor que poderíamos oferecer aos pacientes.
A Kathy, também fisioterapeuta, escreveu de forma muito clara que muitas das nossas condutas quando não faziam mal, apresentavam benefícios limitados e por pouco tempo. Abaixo copio um trecho da conclusão do artigo e você poderá baixar no final desta postagem:
"Embora a fisioterapia seja vista como parte integrante da equipe multidisciplinar na maioria das UTIs, há apenas evidências limitadas sobre a eficácia da fisioterapia nesse ambiente. A fisioterapia pode ter efeitos benéficos de curto prazo na função pulmonar, mas também pode afetar adversamente o estado hemodinâmico e metabólico de pacientes intubados que recebem ventilação mecânica."
Depois que li esse parágrafo, cheguei a ficar preocupado com as minhas escolhas. Não precisa ser muito inteligente para saber que, se o que você faz tem baixa complexidade técnica e não apresenta benefícios claros, esses procedimentos poderiam ser feitos por outros profissionais, e o valor atribuído a um serviço como esse seria muito baixo.
Fiquei com esse estudo alguns meses na cabeça e paralelo a isso, por incentivo de outros profissionais, comecei a estudar fisiologia clínica do exercício. Comecei a ler a primeira edição do livro Cardiologia do Exercício, do professor Carlos Negrão e fiquei muito entusiasmado com o conteúdo e o resto é história. Quando estava no último semestre, pouco antes de me formar, durante uma reunião científica do hospital, foi apresentado outro artigo que mudou novamente tudo.

O artigo foi do fisioterapeuta americano Peter Morris , publicado em 2008 na Critical Care, meses antes da minha formatura. Nele havia uma paciente deambulando intubada, sob supervisão de duas fisioterapeutas. Até aquele momento, nunca tinha visto algo assim. Esse foi um artigo divisor de água e o seu protocolo de mobilização é citado até hoje. A partir dessa época as grades dos eventos foram cada vez mais cedendo espaço para mobilização precoce.

Para mim, foi a partir deste momento, que as coisas voltaram a se encaixar e minha escolha de atuação profissional ficou ainda melhor. Pude dar sentido a fisiologia do exercício que vinha estudando aplicados para pacientes críticos. A cada nova edição da Chest, Critical Care, JAMA, saia um artigo mostrando os benefícios e a segurança de exercitar pessoas muito doentes.
Essa mudança de direção de uma assistência completamente voltada para o cuidado respiratório para outra mais direcionada à reabilitação do paciente que sobreviveu a uma doença crítica, garantiu aos fisioterapeutas um lugar de especialista. Nessa área, ninguém pode nos substituir.
Passou um pouco mais de tempo, agora já formado e atuando em reabilitação cardiorrespiratória ambulatorial e na terapia intensica, a mesma Kathy, em 2013, refez sua revisão com estudos publicados a partir do ano 2000. Muita coisa havia mudado nessa primeira década do século. Foram encontrados mais estudos e a conclusão dela foi esta:
"Há evidências robustas, embora ainda limitadas, publicadas desde a revisão de 2000, demonstrando que intervenções fisioterapêuticas centradas na mobilização precoce progressiva são viáveis e seguras, além de promoverem benefícios funcionais significativos, que podem se traduzir em redução do tempo de permanência tanto na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) quanto no hospital. Essas evidências emergentes confirmam o papel do fisioterapeuta na UTI e destacam a mobilização precoce progressiva como uma intervenção eficaz da prática fisioterapêutica em pacientes adultos, intubados e submetidos à ventilação mecânica."
Essa nova revisão reconhecia oficialmente aquilo que muitos fisioterapeutas já percebiam na prática: a mobilização precoce havia se tornado uma das intervenções com maior respaldo científico dentro da fisioterapia em terapia intensiva.
Em pouco mais de uma década, a literatura científica fez exatamente o que deveria fazer: respondeu às perguntas que a própria Kathy havia levantado em 2000.
A ciência tem um papel fundamental: questionar e ser cética. É justamente essa postura que nos permite chegar cada vez mais perto do que chamamos de verdade. E é a partir desse processo que conseguimos mudar a prática clínica e, de fato, ajudar mais pessoas.
Profissionais muito apaixonados ou excessivamente apegados às próprias condutas podem passar uma vida inteira fazendo a coisa errada. Também não podemos confundir experiência com tempo de serviço.
Experiência e expertise são construídas pela combinação de duas variáveis:
Experiência = Tempo × Qualidade.
Se a qualidade for zero, o tempo não resolve o problema. Apenas faz você repetir o mesmo erro por mais anos.
Continue evoluindo junto com a ciência
Foi exatamente pensando nisso que criamos a CentralFlix.
Mais do que ensinar protocolos, nós discutimos o raciocínio por trás deles. Analisamos os estudos que mudaram a prática clínica, revisamos os principais ensaios clínicos e mostramos como transformar evidências científicas em decisões mais seguras e eficientes à beira do leito.
Se você quer entender por que a mobilização precoce mudou a história da UTI, como interpretar esses estudos clássicos e aprender a aplicar esse conhecimento na prática clínica, a CentralFlix foi construída para você.
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Conhecer os protocolos é importante. Mas entender por que eles existem e como a ciência transformou a nossa profissão faz toda a diferença na formação de um fisioterapeuta.
Por:
Francisco Oliveira
Fisioterapeuta e divulgador científico - Central da Reabilitação
Referências:
